Depressão entre Policiais deve ser tratada sem estigma

Em 08 de Setembro de 2020 – Redação

Nesse ultimo mês, o meio militar sofreu um grande baque. A notícia de que um dos irmãos de farda havia falecido comoveu a todos, mas somente mais tarde veio a confirmação, suicídio – Um Oficial da PMDF, bem como no início deste mês um Agente da PCDF considerados por todos excelentes profissionais. Junto com o choque e a chegada do mês de setembro, que traz consigo a maior campanha em apoio ao tratamento do suicídio – O setembro amarelo, levantamos o questionamento: como lidar com a depressão nas Polícias?

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Policiais militares e civis e bombeiros militares encaram diariamente situações conflituosas e de alto perigo em seu dia-a-dia, contudo, apesar de serem treinados para não demonstrarem suas dores, isto não os transformam em “super-humanos”. Desta forma são expostos ao medo, à ansiedade, à pressão e demais sentimentos diariamente, tornando os números de depressão e outras doenças psicossociais em um dos maiores em instituições públicas.

Segundo uma pesquisa da revista EXAME, em todas as regiões do país, que contam com cerca de 425 mil policiais militares, são altas as taxas de suicídio e de transtornos mentais. Em São Paulo, estado de maior efetivo policial do país, 120 policiais militares cometeram suicídio entre 2012 e 2017.

Números alarmantes, mas pouco divulgados. Isso reforça a ideia utópica de um patrulheiro militar que enfrenta tudo em nome da justiça e não sofre, o que gera um sentimento de isolamento e solidão para aqueles que sofrem desse terrível mal.

Ricardo Batista Nunes, graduado em Polícia e Segurança Pública, afirma que a depressão é uma das principais causas de incapacitação para o trabalho e uma das piores doenças do mundo contemporâneo. “A Organização Mundial de Saúde (OMS) define depressão como um distúrbio psicológico comum, que apresenta elevado grau de apatia, desinteresse, perda do prazer, tristeza, transtornos relacionado ao apetite e ao sono, e ainda instabilidade a sentimentos ligado a auto estima”.

Como a atuação policial requer demasiado controle mental e uma enorme capacidade para julgar, o policial e bombeiro militar são submetidos a conflitos os quais são necessárias grandes decisões imediatas, que podem posteriormente causar um enorme impacto emocional se não são devidamente tratadas. A revista Vice ressalta os números: no Brasil existem cerca de 410 mil policiais militares e 43,8% daqueles que tentaram suicídio não contaram a ninguém sobre esse desejo.

Muitos policiais ainda têm receio em procurar e aceitar ajuda especializada. No entanto, esses casos têm diminuído, felizmente estamos vivenciando uma época em que os transtornos mentais são amplamente discutidos, o que diminui o preconceito incentivando a busca por tratamento.

E apesar dessa realidade, os atingidos pela doença não podem perder a esperança, pois com o tratamento correto é possível ter uma vida saudável e feliz. “Inúmeras estratégias podem ser adotadas, a avaliação psiquiátrica e possivelmente a prescrição de medicação específica, os acompanhamentos psicológicos além de outras práticas integrativas são muito eficientes nesses casos. O importante é buscar ajuda! Preferencialmente nas fases mais iniciais da doença, o que aumenta o índice de remissão total dos sintomas e melhora a qualidade de vida e a cura”.

No livro “Por que policiais se matam? ” da pós-doutora em sociologia pela UERJ, Dayse Miranda destaca, entre os problemas apontados, a dificuldade de pedir ajuda e a forma como são tratados quando adoecem. A orientação é procurar ajuda e que os superiores fiquem atentos ao comportamento de seus subordinados e caso encontre algum sintoma, encaminhe-o para um profissional adequado.

O Setembro Amarelo é dedicado à prevenção do suicídio, momento muito oportuno para lembrarmos que doenças mentais não tratadas podem levar as pessoas a desistirem da própria vida. Apesar de ser um fenômeno multicausal, é importante destacar que algumas profissões, no contexto em que são impostas, tornam o indivíduo mais exposto aos riscos de depressão, outros transtornos mentais e até de suicídio. A atividade policial é uma dessas profissões e traz características bem próprias que aumentam em muito a incidência de casos.

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Além do alto risco de morte apenas por se identificar enquanto policial, a sobrecarga de trabalho, o estresse da atividade, o estado de alerta constante, as mudanças repentinas na rotina e o acesso a armas de fogo são ingredientes que, juntos, tornam policiais potencialmente mais vulneráveis a doenças, principalmente as doenças mentais (pesquisas ainda apontam que profissionais da área de segurança pública constituem um grupo mais vulnerável ao suicídio, em virtude do acesso facilitado a armamentos).

A polícia está presente em nosso cotidiano e muitas vezes inspira nos cidadãos sentimentos ambíguos. Vemos com frequência a atuação policial sendo mostrada exaustivamente pela mídia, ora exibindo policiais como heróis, ora como vilões. Em linhas gerais o que impera é a mentalidade de que eles nada mais são do que objetos a serviço do Estado na produção de segurança pública.

Fato é que esses indivíduos são duplamente atingidos pela violência, como cidadãos e como profissionais, mas esse sofrimento é geralmente indiferente à sociedade a qual deve proteger.

É importante resgatar a lógica de maior credibilidade e humanização do policial, uma vez que sua realidade de trabalho é repleta de riscos, adversidades e fatores que favorecem ao adoecimento físico e mental. No entanto, a maioria dos órgãos de segurança prefere negar a problemática, especialmente quando se trata de casos de suicídio.

Além do preconceito institucional, policiais em situação de adoecimento psíquico têm medo de ter sua arma funcional e/ou pessoal recolhida. Temem ficar estigmatizados pelos colegas, o que dificulta a busca por orientação profissional e apoio social. Dessa forma, eles partem para o cumprimento das missões com a saúde comprometida, tornando-se a personificação do risco para sua integridade física/psíquica, para a segurança da equipe de trabalho e para a sociedade à qual serve.

O adoecimento de policiais pode também estar ligado ainda à estrutura das organizações, marcada muitas vezes por relações de poder assimétricas, por um ambiente hostil e pela coisificação do sujeito. Tudo isso é reforçado por uma cultura organizacional marcada pela “aura de herói” que envolve o policial, na qual ele é doutrinado a cumprir a qualquer custo sua missão com coragem e honra.

Dito isso, é preciso avançar nas pautas que só associam a valorização de policiais a salário e/ou reestruturação de carreira. Precisamos falar também sobre o adoecimento mental e o suicídio de policiais. O preconceito ainda atrapalha as possibilidades de prevenção. Além disso, é elementar buscar práticas humanizadas de gestão na polícia, menos autoritárias, que não compactuam com nenhuma forma de abuso ou assédio, que não ignoram as vulnerabilidades do policial, adotando estratégias que reduzam os fatores de risco e aumentem os fatores de proteção desse profissional que é capaz de ‘atos heroicos’, mas que é um ser humano e não um avatar.

A PMDF conta com programas assistenciais aos policiais militares promovidos pelo Centro de Promoção de Qualidade de Vida (CPQV), ambulatório psiquiátrico, psicoterapia, Hospital Dia, Programas da Capelania, além do Centro de Valorização da Vida (CVV) – 188. O médico acrescentou ainda a importância da atividade física, inclusive para o reestabelecimento e até a cura do paciente, pois libera níveis de importantes hormônios, como a endorfina, popularmente conhecida como “hormônio da alegria”, por promover sensação de bem-estar, euforia e alívio de dores, e a dopamina, que apresenta efeito analgésico e tranquilizante. Ambos influenciam diretamente o humor e as emoções.

Além de tudo isso, os esportes ajudam no controle do peso, no aumento da libido, na melhora do sono e da pressão arterial, no fortalecimento do sistema imunológico, na proteção contra doenças cardíacas e, até mesmo, na proteção contra alguns tipos de câncer.

Assista ao vídeo abaixo e saiba os Sintomas da Depressão

Com informações:

https://www.dm.jor.br/

PMDF e https://fenapef.org.br/